Teatro Arthur Azevedo recebe o gratuito "Cartas da Prisão"
Entre o desejo de ser amado e o medo de perder, há vínculos que nos fazem questionar onde termina a escolha e começa a dependência.
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| Foto: Rafael Salvador |
Em Cartas da Prisão, Chica Portugal dá vida à atriz Rita, que a partir de uma pesquisa sobre relacionamentos abusivos, encontra 250 cartas debaixo de um colchão em uma penitenciária de São Paulo: a correspondência amorosa entre uma dona de casa e um criminoso conhecido como “o maníaco da flor”, condenado por matar mais de 40 mulheres.
“Dois anos juntos. Mostraram sua transferência na tv. Eu fiquei feliz que você foi transferido para um presídio menos cruel. Pena que ficou ainda mais longe.
Eles não te chamam pelo nome, dizem só: o maníaco da flor. E ficam mostrando aquele mosaico com as fotos das 40 mulheres. Eles querem fazer as pessoas acreditarem que você ainda é aquele homem.
Não mostram você lendo livros, ajudando outros detentos com bons conselhos, como eu sei que você faz. Tenho vontade de ligar para a emissora de tv e mostrar suas cartas,
as suas palavras doces e encorajadoras que nunca ouvi de ninguém. ”
M., 42 anos (citação de uma das cartas do espetáculo)
Após dezenas de entrevistas, gravações, e-mails e chamadas telefônicas com mais de 100 mulheres, Chica Portugal e Nanna de Castro constroem um espetáculo que evidencia a relação direta entre violência, virilidade, medo, patriarcado e a dependência emocional de mulheres que tentaram salvar homens violentos através do amor. E fica a pergunta: a paixão já te fez perder o controle e confiar mais do que deveria em alguém?
Em 2025, o Brasil registrou 1.568 casos de feminicídio, uma média de quatro mulheres assassinadas por dia evidenciando a persistência e gravidade do problema da violência contra a mulher no país.
“A montagem busca a relação entre as mulheres do passado e do presente, numa tentativa de sororidade e acolhimento geracional”, comenta Bruno Kott, diretor do espetáculo.
Sobre sua motivação para este solo, a atriz Chica Portugal, que também é idealizadora da montagem, afirma:
“Este espetáculo nasce de uma inquietação profunda: a violência contra a mulher não é exceção, é regra. Ela está nas relações, nas palavras, no controle, na culpa, no silêncio. Muitas mulheres vivem relações abusivas sem sequer perceber, porque fomos ensinadas a normalizar o abuso quando ele não deixa marcas visíveis. ”
Cartas da Prisão é uma tentativa de tornar visível aquilo que a sociedade insiste em manter invisível”, fala a dramaturga Nanna de Castro que rompe deliberadamente o limite entre realidade e ficção, transitando entre depoimentos verdadeiros e fictícios, entre o noticiário e o poético. Obras como Mulheres que Amam Demais, de Robin Norwood, e Loucas de Amor, de Gilmar Mendes, são referências importantes.
“Dentre as facetas das relações abusivas, sempre me intrigaram as mulheres que se correspondem com criminosos sexuais confessos na prisão. É comum que assassinos recebam centenas de cartas de amor de mulheres que os conhecem apenas pelo noticiário. É como se o abuso fosse não apenas aceito ou perdoado, mas acolhido. Não quero e não posso julgá-las, apenas convidar o público, a partir dessa situação extrema, a refletir sobre nossa convivência com a violência e o desrespeito, não apenas no plano pessoal, mas social”, acrescenta a dramaturga Nanna de Castro.
Cartas da Prisão volta em cartaz, após temporada de grande sucesso no SESC Pompeia (SP), em uma nova circulação pela capital através do Edital Prêmio Zé Renato 22ª Edição com apresentações centrais e em equipamentos periféricos. A estreia acontece no dia 25 de novembro, no Teatro Arthur Azevedo, Dia Internacional para a Eliminação da Violência Contra as Mulheres.
Sinopse: Em cena, Chica Portugal dá vida à atriz Rita, que realiza um espetáculo baseado em suas pesquisas sobre relacionamentos abusivos. O fio condutor é a correspondência amorosa entre uma mulher e um criminoso conhecido como “o maníaco da flor”, condenado por matar e esquartejar mais de 40 mulheres. Durante o espetáculo, esta história se entrelaça com a de outras mulheres levantando questões sobre nossas relações, muitas vezes silenciosas, com o abuso, tanto como indivíduos quanto como sociedade.
Serviço
CARTAS DA PRISÃO
Classificação: 14 anos
Duração: 50 minutos
Datas: 25, 26, 27, 28 e 29 de novembro de 2026
Horários: Quinta a sábado às 21h | domingo às 18h
Ingressos gratuitos. Bilheteria abre uma hora antes do espetáculo.
TEATRO ARTHUR AZEVEDO
Av. Paes de Barros, 955 - Alto da Mooca, São Paulo
Estacionamento: Sim (Vagas limitadas). Acessibilidade especial: Sim.
50 lugares. Sala Multiuso
