Cia Solitária circula por equipamentos culturais municipal com o espetáculo Gota Vermelho
Companhia Solitária circula, a partir de 8 de maio, por equipamentos culturais municipal com o espetáculo gratuito
Em um cenário marcado por silêncios e tabus,
o espetáculo transforma a experiência da menstruação em potência cênica ao reunir três mulheres desconhecidas em um encontro inesperado, onde o sangue deixa de ser apenas biológico para revelar suas dimensões sociais, políticas e simbólicas.
O que significa ser um corpo que sangra em uma sociedade que silencia, controla e distorce a experiência de menstruar? Essa é a pergunta central do espetáculo Gota Vermelha, que traz para a cena reflexões sobre o menstruar.
Em um banheiro de estação de trem, três mulheres desconhecidas compartilham um mesmo acontecimento: estão sangrando. A partir desse encontro, a dramaturgia se desdobra de forma fragmentada, atravessando situações e vivências que marcam os corpos que sangram.
Menarca, perda gestacional, pobreza menstrual e silenciamentos cotidianos emergem como camadas de um mesmo tecido, compondo uma teia de experiências que desloca o sangue de sua dimensão exclusivamente biológica e o revela como marca social e política.
Desde muito tempo o sangue menstrual é tabu na nossa sociedade patriarcal, a relação que os corpos que sangram estabelecem com ele desde a primeira menstruação é frequentemente construída desde uma perspectiva pejorativa, sendo visto como incomodo, sujeira, vergonha. Porque um sangue que gera vida é visto dessa maneira pela sociedade? Porque corpos em processo menstrual não são acolhidos com o devido cuidado? Porque nos sentimos constrangidas ao falar sobre esse assunto? A partir dessas questões, a Companhia Solitária entende a necessidade de trazer esse tema para ser debatido em cena.
A encenação parte de um espaço inteiramente branco. Um ambiente que precisa estar sempre limpo, mas que, a cada tentativa de limpeza, se torna ainda mais vermelho. Nesse percurso, o que antes era contido, agora transborda, reorganizando o espaço e o olhar do espectador. A conta gotas, o vermelho se multiplica: no corpo que sangra, que vaza, que mancha, no pano que limpa, nos objetos que surgem, na luz, nas imagens.
Em cena, três intérpretes transitam entre personagens e personas, articulando em linguagem performativa, depoimentos, situações, informações e memórias, fazendo da cena um território onde se registram normas, violências e tabus relacionados à experiência de menstruar. A obra se expande para além do palco e se desdobra em uma instalação, onde vestígios do que foi vivido permanecem, atravessando o público para além do tempo de cena.
Inspirado na ideia de Silvia Federici de que o corpo sangra por natureza biológica e, por isso, também é um território de disputa, Gota Vermelha nos convida a pensar como esse sangue que nasce no íntimo pode existir externamente no mundo para além das violências.
Criado majoritariamente por mulheres periféricas, o espetáculo reivindica seu lugar na produção contemporânea, questionando quem pode ocupar essa linguagem e quais narrativas são legitimadas. Porque corpos periféricos não apenas sangram, mas também criam, elaboram e transformam acontecimentos em teatro.
Sinopse: Em um banheiro de estação de trem, três mulheres desconhecidas compartilham um mesmo acontecimento: estão sangrando. A partir desse encontro, o espetáculo mergulha nas múltiplas experiências de menstruar, atravessando memórias, violências, apagamentos e desejos, enquanto tensiona e ressignifica esse processo ainda tratado como tabu pela sociedade. Entre o real e o simbólico, a obra se expande para além da cena e se desdobra em uma arte-instalação, onde corpo, espaço e matéria se transformam. O que está em jogo é o próprio significado de ser um corpo que sangra.
