"Michael" aposta no espetáculo e evita conflitos em cinebiografia irregular de Michael Jackson

Longa estreia oficialmente nessa quinta-feira (23)

Foto: Universal Pictures



Michael chega aos cinemas cercado por uma expectativa difícil de sustentar. Não se trata apenas de mais uma cinebiografia musical, mas de um retrato de uma das figuras mais influentes, complexas e controversas da história da cultura pop. E essa ambição aparece na tela, ainda que o filme nem sempre saiba exatamente como lidar com o próprio peso.

Do ponto de vista técnico e artístico, o longa impressiona. As sequências musicais são, sem dúvida, o grande destaque. Há um cuidado evidente na recriação de performances icônicas, com coreografias precisas, figurinos detalhados e uma direção que entende a grandiosidade de Michael Jackson como artista. Em vários momentos, o filme consegue capturar aquela sensação de espetáculo que marcou gerações, funcionando quase como um grande show cinematográfico.

Nesse contexto, a atuação de Jaafar Jackson é um dos maiores trunfos da produção. Mais do que imitar, ele incorpora. Seus movimentos têm leveza e precisão, o trabalho corporal é impressionante e há um esforço claro em trazer nuances emocionais ao personagem. Em cena, especialmente durante as performances, existe uma presença magnética que sustenta o filme. Mesmo nos momentos mais íntimos, em que o roteiro poderia oferecer mais profundidade, Jaafar consegue transmitir fragilidade e humanidade, ainda que de forma contida. É uma atuação que carrega boa parte do impacto do longa.

Foto: Universal Pictures


Outro destaque importante é Colman Domingo, que interpreta Joe Jackson. Sua presença adiciona uma camada de tensão que o filme, em vários momentos, parece não explorar completamente, mas que ainda assim se faz sentir. A relação entre pai e filho, historicamente marcada por rigidez, cobrança extrema e episódios controversos, aparece no longa de forma mais controlada do que muitos poderiam esperar.

O filme sugere essa dinâmica mais dura, especialmente na infância e no início da carreira dos Jackson 5, mostrando um Joe Jackson disciplinador e exigente, focado no sucesso a qualquer custo. Colman Domingo entrega uma atuação firme, transmitindo autoridade e frieza em cena, mas o roteiro evita mergulhar mais profundamente nas consequências emocionais dessa relação. Em vez de desenvolver plenamente esse conflito, o longa toca no tema e rapidamente segue adiante, o que reforça a sensação de superficialidade em um dos aspectos mais importantes da vida de Michael.

Esse é, inclusive, o principal problema do filme. Fora do palco, a narrativa opta por um caminho seguro demais. Questões delicadas, que fazem parte da construção pública e privada de Michael Jackson, são abordadas de maneira superficial ou suavizadas a ponto de perderem força dramática. O resultado é um retrato que celebra o artista com intensidade, mas mantém o homem à distância.

Foto: Universal Pictures


Essa falta de aprofundamento compromete o desenvolvimento emocional. Momentos que pediriam mais peso acabam resolvidos de forma rápida, sem o impacto necessário. O filme parece constantemente hesitar entre construir um olhar mais honesto ou preservar uma imagem mais controlada, e essa indecisão enfraquece a experiência.

O ritmo também reflete esse desequilíbrio. Há uma alternância entre sequências eletrizantes e trechos mais arrastados, o que torna o andamento irregular. Algumas passagens se estendem além do necessário, enquanto outras, que pediriam mais tempo e cuidado, são tratadas de forma apressada. A montagem não consegue equilibrar bem essas transições.

Ainda assim, é impossível ignorar o impacto visual e sonoro do longa. A direção aposta em uma estética grandiosa, com enquadramentos pensados para valorizar o espetáculo e uma trilha que reforça o legado do artista. Nesse sentido, Michael funciona muito bem como celebração, quase como um tributo cinematográfico.

Foto: Universal Pictures


No fim, o filme entrega uma experiência potente enquanto espetáculo, mas limitada enquanto cinebiografia. Entende perfeitamente a importância de Michael Jackson para a música e para o entretenimento, mas evita encarar com a mesma profundidade as contradições que definiram sua trajetória.

Para fãs, há muito a ser apreciado, especialmente nas performances e na entrega de Jaafar Jackson, que se firma como o grande destaque do projeto. Para quem esperava um retrato mais completo e sem filtros, fica a sensação de que o filme escolhe o caminho mais seguro quando tinha a chance de ser realmente definitivo.

Pelo fim abrupto, podemos prever que haverá uma continuação, que deve pegar do final da turnê Bad, em 1989, até a morte do rei do pop, em 2009. Só podemos aguardar.