"Romeu & Romeu" emociona com elenco afiado e encenação de grande força física

Pedro Pilar, Juan Alves e Guilherme Chelucci | Foto: Divulgação

O amor sempre esteve no centro de "Romeu e Julieta". Em "Romeu & Romeu", porém, ele deixa de ser apenas o motor da tragédia para se tornar um ato de resistência. A montagem em cartaz no Teatro Itália não revisita Shakespeare por provocação ou oportunismo. Ao contrário: encontra no clássico um espelho perturbadoramente atual para um mundo que ainda tenta determinar quem pode amar, como deve amar e quais afetos merecem ser legitimados.

O texto de Ronaldo Ciambroni ganha nova força sob a direção de Rogério Fabiano, que compreende que a potência desta história não está apenas em seu discurso, mas sobretudo na maneira como ele é traduzido para a cena. O resultado é um espetáculo pulsante, construído sobre movimento, presença e entrega física.

Muito se comentou sobre os corpos seminus dos atores. No entanto, reduzir a montagem a esse aspecto seria ignorar uma de suas escolhas mais inteligentes. A exposição corporal não surge como elemento de sedução nem como recurso para causar impacto fácil. Os corpos aparecem como estruturas em funcionamento, quase mecânicas, integrantes de uma engrenagem social que condiciona comportamentos, desejos e identidades. São corpos que comunicam ideias antes mesmo de comunicar beleza.

E isso talvez explique um dos maiores triunfos do espetáculo. Guilherme Chelucci, Márcio Louzada, Juan Alves, Wallace Guimarães e Pedro Pilar formam um elenco de inegável apelo visual. Mas a qualidade das interpretações é tamanha que, passados poucos minutos, o olhar do espectador abandona qualquer contemplação superficial para se concentrar exclusivamente na verdade que cada artista constrói em cena.

Chelucci conduz seu Romeu com intensidade e sensibilidade, evitando qualquer romantização excessiva. Pedro Pilar encontra em Zinho uma humanidade desarmante, fazendo com que a relação entre os protagonistas alcance uma dimensão universal. Ao redor deles, Márcio Louzada, Juan Alves e Wallace Guimarães sustentam uma dinâmica cênica vigorosa, contribuindo para que a narrativa jamais perca ritmo ou tensão dramática. Wallace, por sinal, da um show a parte no momento do seu solo.


Foto: Divulgação


Há um entendimento admirável de teatro físico atravessando toda a encenação. Cada deslocamento, cada composição visual e cada gesto parecem responder a uma mesma partitura dramatúrgica. A direção de movimentos não funciona como adorno estético, mas como linguagem narrativa. Muitas vezes, o corpo diz aquilo que as palavras já não conseguem expressar.

O aspecto mais admirável de "Romeu & Romeu", entretanto, talvez seja sua recusa em transformar a própria temática em manifesto. A peça fala sobre preconceito, intolerância e violência, mas escolhe fazê-lo através da humanidade de seus personagens. Não busca convencer; busca emocionar. E justamente por isso alcança uma força rara.

Ao final, fica a sensação de estar diante de uma montagem que entende perfeitamente a responsabilidade de revisitar um clássico. Em vez de reproduzir Shakespeare ou tentar superá-lo, "Romeu & Romeu" dialoga com ele. E desse diálogo nasce um espetáculo contemporâneo, sensível e artisticamente consistente, capaz de lembrar ao público que as grandes histórias de amor permanecem vivas porque continuam falando sobre liberdade.

No palco do Teatro Itália, essa liberdade ganha corpo, voz e movimento. E encontra, no excelente trabalho de seu elenco, uma de suas expressões mais bonitas.

Assista matéria exclusiva com os atores da peça: